Por muito tempo, demonstrar tristeza, medo ou fragilidade foi tratado como algo que não combinava com a ideia de “ser homem”. Frases como “homem não chora” atravessaram gerações e ajudaram a construir um silêncio que, muitas vezes, também chega à saúde mental. O sofrimento, porém, existe e nem sempre aparece de maneira óbvia.
Ansiedade, depressão, estresse, uso abusivo de álcool e outras drogas estão entre os problemas que podem afetar a saúde mental masculina. Irritabilidade, isolamento, falta de motivação e mudanças de comportamento também podem esconder a necessidade de ajuda.
O Dia Nacional do Homem, celebrado no Brasil nesta quarta-feira, 15 de julho, tem como objetivo principal conscientizar o público masculino sobre a importância da prevenção de doenças, incentivando a realização de exames médicos regulares e cuidados com a saúde mental.
Segundo o psicólogo Mozer da Costa Farias, dificuldades no trabalho, problemas financeiros, desemprego, separações e conflitos nos relacionamentos estão entre os fatores que podem afetar a saúde mental dos homens.
“Quando o homem procura auxílio em saúde mental, geralmente é por recomendação de outro familiar, que percebeu nele irritabilidade, falta de motivação, isolamento e tristeza”, explica.

Quando ser “forte” vira uma barreira
A dificuldade em reconhecer o próprio sofrimento também pode estar relacionada à forma como muitos homens aprenderam a lidar com as emoções.
“Nossa cultura estimula um modo de pensar que diz que os homens devem ser fortes sempre e que falar sobre sentimentos é sinal de fraqueza. Isso não é verdadeiro, mas tem consequências negativas para a saúde mental do homem”, afirma Mozer.
Explosões frequentes de raiva, isolamento, alterações no sono, perda de interesse pelas atividades habituais e aumento do consumo de álcool ou outras drogas estão entre os sinais que merecem atenção.
Segundo Eluana Costa Carvalho, coordenadora da Referência Técnica em Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde de Belém (Sesma), é importante observar principalmente quando essas mudanças persistem ou começam a interferir na rotina.
“Alguns sinais merecem atenção, principalmente quando permanecem por mais de duas semanas ou começam a interferir na vida familiar, social ou profissional”, alerta.
Familiares e amigos também podem ajudar ao perceber mudanças de comportamento. “Familiares e amigos exercem papel importante ao perceber mudanças de comportamento e incentivar uma conversa acolhedora, sem julgamentos”, destaca Eluana.

Cuidar da mente também é cuidar da saúde
Entre as barreiras que ainda afastam alguns homens do tratamento estão o medo de demonstrar fragilidade e as preocupações relacionadas ao uso de medicamentos, inclusive sobre possíveis efeitos na vida sexual.
“É importante esclarecer que nem todos os medicamentos causam alterações dessa natureza e, quando elas ocorrem, geralmente podem ser manejadas pelo profissional de saúde, seja ajustando doses, substituindo medicamentos ou associando outras estratégias terapêuticas”, explica Eluana.
O cuidado com a saúde mental também não se resume ao uso de medicamentos. Dependendo das necessidades de cada pessoa, pode envolver psicoterapia, grupos terapêuticos, atividades comunitárias, práticas integrativas, atividade física e fortalecimento dos vínculos familiares e sociais.
Para Mozer, não é necessário esperar que o sofrimento chegue ao limite para procurar ajuda.
“Quando esses sentimentos apresentam intensidade e frequência elevadas, afetando a si ou a terceiros, isso indica a necessidade de procurar auxílio profissional.”
O primeiro passo pode estar perto de casa
Em Belém, quem enfrenta sofrimento emocional pode procurar inicialmente uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou Estratégia Saúde da Família (ESF). A partir do acolhimento e da avaliação, a equipe define a melhor forma de acompanhamento e, quando necessário, realiza o encaminhamento para atendimento especializado.
“Em Belém, o atendimento é organizado pela Rede de Atenção Psicossocial, que integra diferentes serviços para garantir cuidado contínuo e humanizado”, explica Eluana.
Uma das iniciativas voltadas à aproximação da população masculina com os serviços de saúde é o Consultório do Homem, implantado no Postão do Jurunas. Com horário estendido, a estratégia busca facilitar o acesso, inclusive para quem encontra dificuldades para procurar atendimento durante o horário convencional.
Desde o início do funcionamento, em maio de 2026, o serviço registrou 126 atendimentos médicos de homens entre 18 e 59 anos. Foram 20 atendimentos em maio, 88 em junho e 18 até o início de julho, segundo dados do e-SUS registrados pela Sesma.
Neste Dia do Homem, o cuidado também passa por reconhecer que pedir ajuda não diminui ninguém. Às vezes, falar sobre o que está acontecendo pode ser o primeiro passo para começar a ficar melhor.
Onde buscar ajuda em Belém:
– Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Estratégias Saúde da Família (ESF):
