Mãos que seguram o rio: Valmir dedica vida a conter as águas em Belém

Com 26 anos de dedicação, encarregado lidera a operação das 18 comportas, sistema essencial que impede a invasão da água da baía em bairros da capital.

Enquanto grande parte dos moradores de Belém ainda dorme ou se prepara para o trabalho, os olhos de Valmir Rodrigues, de 62 anos, estão fixos na régua que marca o nível do rio. Há quase trinta anos, quem marca o ponto de Valmir não é o relógio, mas a maré. É o ciclo das águas que dita o compasso de um trabalho que não pode parar. Como encarregado das 18 comportas da Bacia do Una, Valmir é o homem que abre os “portões” da cidade para a água não entrar.

“Eu trato isso aqui como se fosse um filho, de verdade. Sei da responsabilidade. Se não fossem essas comportas, a cidade já estaria no fundo, porque a água da baía iria invadir tudo”, afirma Valmir, com o orgulho de quem conhece a importância do trabalho, destaca Valmir.

Para Valmir, o complexo do Una é mais do que um posto de trabalho; é o alicerce de sua vida. Com orgulho, ele afirma que é deste importante trabalho que tira o sustento da família durante todos esses anos. “Eu gosto do que faço, sinto que estou cuidando da cidade”, conta.

O coração da drenagem

O trabalho de Valmir e sua equipe é preciso e estratégico: quando a maré sobe, as comportas são fechadas para impedir que a água da Baía do Guajará avance sobre o sistema de canais. Quando o rio seca, elas são abertas para permitir o escoamento das águas que vêm de canais vitais como o São Joaquim, Galo, Antônio Baena e Visconde de Inhaúma.

Valmir é responsável por analisar o nível da água e saber o momento exato de fechar e abrir o sistema

Essa operação influencia diretamente a vida de quem mora em bairros como Telégrafo, Sacramenta, Barreiro, Val-de-Cans, Pedreira e Marambaia. São áreas que, antes da existência do complexo de comportas, sofriam com alagamentos crônicos.

A luta contra o descarte irregular

Além da pressão da água, Valmir relata um inimigo sólido: o descarte irregular de resíduos. Logo na entrada do sistema, há uma barreira de contenção, recentemente revitalizada pela Secretaria Municipal de Zeladoria e Conservação Urbana (SEZEL), que impede que o lixo jogado nos canais chegue à baía.

De acordo com o trabalhador, no Verão são retiradas de 4 a 6 caçambas de resíduos desta barreira. No Inverno, o volume sobe para até 10 caçambas, totalizando cerca de 4 toneladas de lixo por dia.

Neste período de chuva, são retiradas cerca de 4 toneladas da barreira de contenção

“Já encontramos de tudo aqui. Desde geladeiras a corpo de animais ou humanos. Falta a população se conscientizar e não jogar lixo na beira do canal”, lamenta o encarregado, que lidera o processo de limpeza para garantir que o fluxo da água não seja interrompido.

Revitalização nas comportas

Após passar mais de 20 anos sem manutenção adequada, o conjunto de comportas finalmente recebeu uma reforma estrutural completa na gestão atual. A revitalização tanto nas comportas – que ganharam um material mais resistente – quanto na barreira de contenção, garante que Valmir e sua equipe tenham os equipamentos necessários para continuar protegendo Belém.