Vinte catadores participam de uma capacitação voltada ao manejo e à destinação correta de resíduos eletroeletrônicos. O curso ocorre entre os dias 16 e 18 de setembro, no Instituto de Ciências da Educação (Iced) no campus Guamá da Universidade Federal do Pará (UFPA). A formação integra o projeto “ReciclaON”, do Instituto Gea – Ética e Meio Ambiente, executado em parceria com o Laboratório de Sustentabilidade (Lassu), com apoio do Fundo Socioambiental Caixa e Belém.
A iniciativa busca orientar catadores sobre as possibilidades de reaproveitamento e reutilização dos equipamentos descartados, além de ensinar procedimentos para a triagem dos materiais antes do encaminhamento para reciclagem ou comercialização. A capacitação conta com a participação de educadores ambientais da secretaria de saúde.
Capacitação orienta sobre triagem, saúde e precificação
Durante os três dias de atividades, os participantes recebem informações detalhadas sobre a composição dos resíduos eletroeletrônicos, os riscos ocupacionais e os cuidados necessários durante o manuseio. Segundo a secretária executiva de Inclusão Produtiva, Pamela Massoud, o trabalho desenvolvido durante o curso busca aproximar ainda mais Belém das cooperativas e ampliar o aproveitamento dos resíduos na capital e municípios vizinhos.
“A ideia do curso do Instituto Gea é fazer, junto com Belém, o menor manuseio desse resíduo e a forma correta de triagem. A atividade engloba cooperativas de toda a Região Metropolitana de Belém, fortalecendo a rede de trabalhadores que atua na coleta seletiva e na destinação ambientalmente adequada. A proposta é evitar que materiais que ainda possuem valor econômico sejam descartados de maneira inadequada e, ao mesmo tempo, reduzir os riscos associados ao contato incorreto com componentes químicos e perigosos presentes nos equipamentos”, explica.

Para quem atua diariamente na coleta, o aprendizado representa uma mudança estrutural de visão. O catador Agenor da Cruz, 60 anos, ressalta que o curso ajuda a profissionalizar a categoria e a romper preconceitos históricos.

“As pessoas estão tendo uma visão melhor dos catadores, entendendo que não basta só a gente catar, pegar e vender. É preciso ter conhecimento daquilo que a gente está fazendo, como em qualquer outra empresa ou profissão. Esse curso nos dá uma direção para ampliar o conhecimento sobre os riscos. Quando levamos essa informação, o impacto é maior. E isso não vai abranger só a cooperativa, mas também quem está lá fora.”
Resíduos podem multiplicar renda das cooperativas
Além da proteção ambiental e da segurança do trabalhador, a destinação correta dos equipamentos está diretamente relacionada à autonomia financeira e à valorização do trabalho dos catadores. A separação e a desmontagem adequadas permitem identificar placas, fios e componentes de alto valor comercial, evitando que as cooperativas vendam materiais valiosos como sucata genérica por preços irrisórios.
José Gomes, 39 anos, catador participante da formação, reforça o impacto prático do curso na rotina do trabalho e na preservação da saúde dos cooperados.
“Esse curso é uma oportunidade muito boa de buscar conhecimento não só na área do material eletrônico, como no risco total dos resíduos que a gente manipula. É uma forma de conhecer o material eletrônico, como reaproveitar de uma forma adequada.”

O professor Wanderley dos Anjos, que faz parte da equipe do projeto, ressalta a importância do curso.
“Eles aprendem aqui, principalmente, a forma adequada de trabalhar com os resíduos eletroeletrônicos. O objetivo principal é que eles trabalhem diminuindo a possibilidade de contaminação e aumentando a renda. Um dos pilares da nossa capacitação é dizer qual é o preço real das peças, porque o que ocorre muito é os compradores irem nas cooperativas querendo comprar o material por um preço muito menor do que ele realmente vale. Com a desmontagem e a separação correta, eles podem vender por um preço até dez vezes maior do que se vendessem como sucata.”

Descarte irregular preocupa autoridades e catadores
O descarte inadequado de resíduos eletroeletrônicos provoca graves danos ambientais e oferece riscos diretos à saúde e à segurança de quem manipula esses materiais sem a devida orientação. Um dos problemas recorrentes destacados durante o curso é a prática da queima irregular de fios para a retirada do cobre. Além de inutilizar outros componentes, a queima libera fumaça altamente tóxica na atmosfera e expõe o trabalhador a metais pesados.
Outra preocupação constante é a comercialização de materiais sem o devido conhecimento sobre seu valor e riscos associados.
